O lado materno da escritora Fernanda Young, que morreu no mês passado - Cabeça de Criança
  • O lado materno da escritora Fernanda Young, que morreu no mês passado



    Fernanda Young com a filha, Estela May / Reprodução Instagram @e.mym

    Nesta quarta-feira (25) completa-se um mês da morte da escritora, roteirista e atriz Fernanda Young.

    Fernanda morreu repentinamente, aos 49 anos, de uma parada cardíaca, decorrente de uma crise de asma.

    A artista tinha quatro filhos: as gêmeas Estela May e Cecília Madonna, de 19 anos, Catarina Lakshimi, de quase 11 e John Gopala, de 10 anos.

    Fernanda falou sobre a sua experiência de maternidade em um seminário realizado pela revista Pais & Filhos em maio de 2018, no qual o site Cabeça de Criança esteve presente.

    A artista começou sua palestra falando sobre como, logo que suas filhas nasceram, não se reconheceu de início. Ela disse que, durante os dois ou três primeiros anos, se perdeu, em uma tentativa de se adequar a seu novo papel. Logo ela, que sempre foi “inadequada” e contestadora.

    Mas, com o tempo, ela percebeu que, para ser uma boa mãe, ela tinha que se permitir ser ela mesma. “A autoestima é um exercício, não é algo orgânico”, disse.

    Fernanda também contou que, desde sempre, queria adotar filhos. “Eu duvidava da minha natureza física, não achava que podia gerar filhos”, disse na ocasião. Mas ela gerou, e em dose dupla, quando teve as gêmeas Estela e Cecília, em 2000. Ela revelou que, depois das gêmeas, tentou engravidar outras vezes, sem sucesso.

    Então ela entrou na fila para adotar uma criança. Primeiro, Fernanda contou que o processo de adoção de Catarina Lakshimi levou cerca de um ano, e  que foi mais burocrático do que imaginava. Apesar da felicidade de ter conseguido aumentar a família, a escritora confessou que aquele amor incondicional que sempre é cobrado das mães veio mesmo com o convívio.

    Alguns meses depois, já com a filha oficialmente adotada e fora da fila, Fernanda recebeu uma ligação de um instituto, pedindo ajuda financeira para cuidar de um recém-nascido abandonado pela família. A artista foi até o local e decidiu levar o menino para casa, mesmo sendo um procedimento totalmente irregular. “Foi algo não idealizado e não programado”, contou.

    A escritora revelou no evento que, no início, escondeu o bebê, batizado de John Gopala, com medo que tirassem a criança deles. “Depois fui no fórum e aleguei que fiz isso para tirá-lo de uma situação de penúria”, contou.

    No evento, Fernanda contou que o processo de adoção de John foi mais complicado, e demorou cerca de três anos para conseguir a guarda definitiva. Nesse período, não podia viajar ou incluí-lo no seguro saúde, por conta da documentação irregular.

    Mas, no final, deu tudo certo. Inclusive, Fernanda atribuiu à presença de John na vida da família um diagnóstico que salvou a vida de Catarina. Ela contou que viu Catarina brincando com John e, mesmo sendo alguns meses mais velha, percebeu que a filha não se movimentava como o irmão. A escritora consultou um neuropediatra, que receitou uma ressonância e descobriu que a menina tinha hidrocefalia. Catarina foi operada no dia seguinte.

    A escritora sempre falava sobre os filhos com muita sinceridade e sem romantismos, mas também com carinho e admiração. “Meus filhos me inspiraram, porque convivendo com eles você aprende a alma humana, as diferenças. A vida doméstica pode ser insuportável, mas existe poesia no caos”, disse a artista, em entrevista para o site Infanti durante o evento. “Quem quer filhos deveria ter, e não pensar no aspecto prático. A vida se ajusta”.

    Veja a entrevista:

     

    No Instagram, as filhas de Fernanda, Estela May e Cecília Madonna, vêm postando homenagens à mãe, talvez como forma de aplacar as saudades. “Eu amo sua voz e não vou esquecer dela“, escreveu Estela nesta terça-feira (24).

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    em casa sempre teve muito retrato seu, retratos grandes, médios, pequenos em todo mísero cantinho. é impressionantemente irritante como você saía bem em cada um deles. sempre te achei tão linda. tinha aquela história de quando você trouxe amigas aqui em casa e eu bebê bobona disse na cara de todo mundo que você era de longe a mais bonita. linda, inteligente, chata, legal. quando a gente era menor eu e a biju aderimos a tática do “ok” pra te fazer parar de discutir com a gente. “ok, mamãe, desculpa. ok. ok okkkkk.” te deixava bravíssima. e cê nunca deixava pra lá. falaaaaaava. falava bem e falava alto. eu amo sua voz e não vou esquecer dela. só deixava de falar quando ficava triste. mas falava que tava triste quando colocava aquele pijama azul. lembro quando a gente maratonou downton abbey na sala. você gostava de assistir coisa com vestido bonito. eu não, mas assistia porque gostava de ficar com você. eram tempos horríveis mas a gente riu pra caramba. hoje todo segundinho do dia é um esforço coletivo enorme pra se animar agora que a escrota da ficha tá caindo devagarzinho. a rebordosa disso tudo é foda. a coisa mais frustrante e dolorida do mundo. mas a gente ri. cê dizia que eu captava a alma nos desenhos (o que é uma grande mentira, eu capto pessoas, quase) mas eu nunca consegui te desenhar direito por causa do seu nariz perfeito. também nunca te mostrei nada que escrevi porque morria de vergonha. queria que cê lesse isso, de alguma forma maneiríssima ultra-planetar supersônica multidimensional. sei que cê acreditava em deus, então, se ele de fato existir e estiver te mostrando esse textinho no instagram, deus, eu to puta.

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    Já Cecília escreveu, no último dia 5, “Um post só para avisar para mamãe que eu estou pegando muita coisa dela para mim (porque eu tenho certeza que onde quer que ela esteja, ela está dando um jeito de checar o Instagram)”.

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